Ser santo ou não ser santo, eis a questão!

06/11/2019 Vários Espiritualidade

Ser santo ou não ser santo, eis a questão!

Em todos os dicionários, quando se busca a palavra “santo”, entende-se algo que está profundamente ligado à divindade. Algo que ultrapassa a nossa pobre maneira de pensar e de ser. Somos chamados a ser não só semelhantes a Deus, mas a participar da Sua mesma natureza divina.

Sempre a Palavra de Deus tem falado de santidade, de ser santo, mas pode ser que nunca tenhamos compreendido perfeitamente o que estas palavras significam. Cada um as interpreta segundo os próprios gostos, mas, na verdade, deveríamos tentar definir bem claramente em que consiste a nossa vocação à santidade. Isso o faz o Concílio Vaticano II; o faz melhor ainda o próprio Deus, que declara solenemente “sejais santos, porque eu, vosso Deus, sou santo”. Uma definição ontológica do mesmo ser de Deus, Ele é santo.

Em todos os dicionários, quando se busca a palavra “santo”, entende-se algo que está profundamente ligado à divindade. Algo que ultrapassa a nossa pobre maneira de pensar e de ser. Somos chamados a ser não só semelhantes a Deus, mas a participar da Sua mesma natureza divina.

Deus não é ciumento nem egoísta. Ele quer partilhar conosco da Sua riqueza e de todos os Seus atributos divinos, como poder, glória, amor, luz e paz; e à medida que vivemos empenhados nisso nos aproximamos do mesmo Deus. A nossa vocação não é rastejar por aí, mas voar até os mais altos montes da perfeição, de onde podemos, desde já, contemplar o mesmo Deus envolvido de luz e de amor.

Sobre ser santo

Ser santo, para quem crê, não é opcional, mas sim uma exigência do mesmo ser “religioso”. Quem não deseja ser como Deus perde o seu tempo e manipula a religião para seu uso e consumo. Na Igreja Católica, a santidade não é reservada a um pequenino grupo de felizardos, a um clube de perfeitos, mas é sim vocação comum a todos os batizados, a todos os que se deixam amar pelo Senhor. Aliás, hoje, deveríamos falar de uma santidade ampliada que ultrapassa os confins restritos da religião e ver como projeto de santidade todos os que lutam contra a injustiça, o mal, que tentam buscar o bem dos pequenos e pobres.

Há, mesmo fora da Igreja Católica, muitas pessoas que têm lutado, com verdade e amor, para vencer o mal “institucionalizado” por tantas leis injustas e desumanizadoras.

Ser santo é, pois, ter noção de dois ideais fundamentais: amar a Deus e amar o próximo. Não se pode pertencer a nenhuma religião que seja digna deste nome sem estes dois amores unidos e inseparáveis. Quem sabe, num futuro não tão distante, a Igreja Católica tome a decisão de fazer uma liturgia para todos os santos e justos de todas as religiões.

Ser santo é nos convencermos de que as palavras de bem devem ser carne e vida, e que todos – não somente cristãos, mas todo ser humano – são criados por Deus para construir a cultura da vida, do bem e não para cooperar com o mal.

Não há espaço para o mal no mundo e podemos derrotá-lo somente com o bem e não com discursos políticos nem com uma vida doce, mas com a coragem que só vem de Deus.

Eis uma grande multidão 

A minha ideia da grande festa de todos os santos de todas as religiões nasce da leitura do Apocalipse, em que são destruídos os limites e os confins da nossa cabeça e coração pequenos. João não diz que viu duas ou três pessoas, mas sim uma multidão que o olho humano e a inteligência humana não podem contar.

Que bela é a humanidade inteira que caminha para o Cristo Jesus, o Ômega, e toda a vida humana. No meu coração, não há nenhuma dúvida de que os que vão ao Paraíso são a maioria das pessoas. Os outros que não estão preparados – e um destes sou eu – vão esperar o fim do mundo para entrar na glória do Senhor.

O sangue de Jesus derramado na Cruz é o que torna as vestes brancas de todos os que sofrem nesta Terra. Não podemos esquecer que o sangue do mártir Jesus é Salvação para todos e para sempre. A festa de todos os santos nos recorda o mistério do amor de Deus para a humanidade; um amor infinito pelo qual se realiza a Encarnação, que é o início da Salvação, que, por sua vez, culmina no Calvário.

Somos verdadeiramente filhos de Deus

O evangelista João vive de amor e sente arder no seu coração a chama do amor de Cristo, que veio para salvar toda a humanidade. Somos filhos de Deus, irmãos de Jesus, iluminados e purificados pelo sangue do Senhor, que nos dá a força do Espírito Santo vivificador. A leitura deste pequeno trecho da Primeira Carta de São João nos enche o coração de uma felicidade imensa, particularmente as últimas palavras: “Todo o que espera nele, purifica-se a si mesmo, como também ele é puro.” (1Jo 3,3)

Nós vivemos pela esperança de que pela fé se faz certeza a Salvação. Quem acolhe Jesus na sua vida não pode ter medo de Deus. Nós somos, como diz o Salmo Responsorial: “a geração dos que procuram o Senhor” (Sl 23/24). Logo, contemplar a face de Deus em todo o Seu esplendor é a nossa vocação; não podemos fazê-lo enquanto vivemos, porque não suportaríamos, mas podemos, desde já, ver o rosto de Deus no rosto dos nossos irmãos.

O caminho das bem-aventuranças 

Quantas vezes nos perguntamos qual é o caminho da santidade? Quebramos a cabeça para encontrá-lo e depois de tanto pensar desistimos da resposta. O caminho mais belo para chegar à santidade é seguir as Bem-aventuranças passo a passo, sem pressa e, sobretudo, sem afobação, por sabermos que quem conduz a nossa história não somos nós, mas Deus.

As Bem-aventuranças não são algo difícil, mas muito fácil, se colocamos em prática a primeira. É preciso ser pobre para começar o caminho, quer dizer, é necessário nos desposarmos de toda soberba e orgulho, de toda autossuficiência, buscando em Deus a nossa riqueza e plenitude de vida. Apenas os pobres em espírito são os autênticos candidatos para a santidade.

A pobreza de que fala o Evangelho é a chave que abre todas as portas, porque os pobres, isto é, os que sabem que necessitam de Deus já estão no Paraíso, são cidadãos do Reino de Deus e são felizes. As outras Bem-aventuranças são consequências da pobreza interior, que exige a pobreza material.  Somos chamados a ser santos, a partilhar as maravilhas que Deus opera em nós e a partilhar as coisas da Terra.

Ser santo ou não ser santo, eis o dilema. Dou a minha resposta: Senhor, quero ser santo!

“Não sou um guerreiro que combateu com armas terrestres, mas com a espada do Espírito que é a palavra de Deus”. (Santa Teresinha)

 

Por Frei Patrício Sciadini, OCD

Fontewww.comshalom.org

Imagem: http://pnscjm.com.br/a-santidade-implica-em-estarmos-sempre-alegres/

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